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Esquerda deveria ressignificar nacionalismo brasileiro 

Sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Foto: Eduardo Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940 – Montevidéu, 13 de abril de 2015)/Divulgação

“Para os Estados Unidos sai mais barato o ferro que recebem do Brasil ou da Venezuela do que o ferro que extraem de seu próprio subsolo.”

O trecho poderia pertencer a qualquer jornal brasileiro da atualidade, mas foi retirado da antológica obra de Eduardo Galeano, “As Veias Abertas da América Latina”, clássico publicado em 1971.

O uruguaio segue, em sua análise, lembrando a trágica queda de Getúlio Vargas, o qual escolhera desrespeitar a imposição americana firmada em acordo militar que proibia o Brasil de vender matérias-primas estratégicas para países socialistas, vendendo ferro para a Polônia e a Tchecoslováquia a preços mais altos que os que conseguia com os EUA em 53 e 54.

Em 1957, a americana Hanna Mining Co. compraria grande parte da mineradora britânica que explorava o Vale do Paraopeba, em Minas Gerais, onde, à época, se encontrava a maior concentração de ferro do mundo. Mas, apesar do grande negócio, a empresa não estava legalmente habilitada para explorar a riqueza cobiçada. A mineradora, porém, contava em seus quadros com pessoas que integravam o alto escalão do Estado brasileiro.

Jânio Quadros, em 21 de agosto de 1961, tentaria se defender da cobiça das empresas americanas, anulando as autorizações ilegais que favoreciam a Hanna e restituindo as jazidas de ferro à reserva nacional. Quatro dias depois, porém, seria obrigado a renunciar após pressão de ministros militares. Mas a Campanha da Legalidade, liderada por Brizola, frearia o anseio militar e americano ao colocar o vice João Goulart no poder.

Jango tentaria pôr em prática o ataque fatal a Hanna, a partir de julho de 1962, com um plano de estabelecer um entreposto de minerais no Adriático para abastecer europeus capitalistas e socialistas. Tal objetivo somou-se a outras medidas, como a restrição à drenagem dos lucros de empresas estrangeiras, criando uma situação cada vez mais explosiva no país que culminaria no golpe militar de 1964.

A revista Fortune consideraria o golpe como um “resgate de último minuto pelo Primeiro da Cavalaria” para a Hanna. Já o Washington Star diria que “um bom e velho golpe de estado, no velho estilo, dos líderes militares conservadores bem pode servir aos melhores interesses de todas as Américas”.

Mas a história logo mostraria que nem todas as Américas sairiam satisfeitas.

Logo após o golpe, homens da Hannah ocuparam a vice-presidência do Brasil e mais três ministérios. Não tardaria para que a mineradora americana tivesse seus desejos atendidos. Em 24 de dezembro de 1964, quando o corpo da democracia ainda esfriava, a Hanna ganharia um decreto que a autorizava a explorar o ferro de Paraopeba.

E a US Steel não poderia ficar atrás. A outra mineradora americana se associou à Vale do Rio Doce, o que lhe garantiria a concessão das jazidas de ferro da Serra dos Carajás, na Amazônia. Galeano ainda lembra que, “como de costume, o governo aduziu que o Brasil não dispunha de capitais para realizar a exploração por conta própria”.

Estes primeiros atos da ditadura militar certamente contrastavam com o discurso que o tinha “justificado” meses antes e que seguiria em forma de propaganda nos 21 anos seguintes. Slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o” e até mesmo o uso político da vitoriosa seleção brasileira seriam recorrentes em todo o regime.

Mas as tenebrosas transações entre os militares brasileiros e o governo e o capital privado americanos mostravam uma história bem diferente. Ao final da ditadura, a herança do “milagre econômico” seria a alta dependência externa, uma inflação monstruosa e uma dívida externa impagável, tudo isso sem que se atingisse o sonho de ver o país, enfim, possuir uma indústria verdadeiramente nacional que pudesse dar uma sustentação estável à economia.

O mesmo roteiro se seguiu em outros países latinos. Se as reformas de base de Jango, que buscavam a redução das desigualdades e a melhoria das condições de vida do povo brasileiro, ensejaram o golpe no país, no Chile de Allende, as políticas de coletivização de fábricas multinacionais e de nacionalização das reservas de cobre seriam a justificativa para os militares chilenos, igualmente apoiados por americanos. Em ambos, o verdadeiro nacionalismo, de caráter popular, acabou sendo engolido por uma patriotada fajuta propagandeada por militares e civis de desejos entreguistas.

Mas foram vários os momentos na história brasileira em que movimentos semelhantes ocorreram. O atual, por exemplo, é um deles, e ainda está em jogo.

As manifestações que levaram ao impeachment de Dilma e ao golpe no país eram recheadas de discursos patrióticos de pessoas que vestiam-se e pintavam-se com as cores brasileiras. Boa parte dos políticos da direita surfaram nessa onda pseudonacionalista para angariar votos. A grande imprensa (a mesma de 64) não poupou editoriais “em defesa da pátria” ao propor o impeachment, repetindo o apoio ao golpe militar em 64.

Mas as políticas que se sucederam ao golpe não seguiram o tom dito “nacionalista”. O Wikileaks, por exemplo, já revelou que, em documentos de 2009, Exxon e Chevron, petrolíferas americanas, tinham o desejo de alterar a legislação brasileira para acabar com o domínio da Petrobras sobre o petróleo nacional, usando-se de relações com políticos como Serra e organizações como FIESP e CNI.

 

Pouco tempo após o impeachment, não por acaso, a Câmara aprovou projeto de autoria de Serra que possibilitava a exploração do pré-sal por companhias estrangeiras.

 

Mesmo a família Bolsonaro, que tem ganhado público na Câmara com um discurso patriótico vazio, votou a favor da entrega de nossas reservas aos estrangeiros.

Sinais do sentido que tomou o sentimento nacionalista no país. Um “nacionalismo” que vê as pessoas de pele mais escura como inimigas.

Que enxerga como mais “merecedores” da condição de brasileiros aqueles que vivem mais ao sul. Uma verdadeira patriotada que não hesita em defender políticas que tirem vidas de outros brasileiros. Mas que, paradoxalmente, adota práticas entreguistas que acabam favorecendo o capital estrangeiro em detrimento do próprio povo brasileiro.

Assim, o nacionalismo fajuto brasileiro acabou se transformando em uma espécie de refúgio para a direita liberal, uma patriotada que do fascismo europeu herdou apenas a truculência, o discurso de ódio e o apelo policial.

Não que ideais nacionalistas sejam, necessariamente, fascistas. Há exemplos pelo mundo de políticas nacionalistas que, ao contrário do ideal nazifascista, reconheciam a luta de classes e a diversidade e, justamente por isso, criaram projetos de desenvolvimento nacional soberanos sem recorrerem a discursos de ódio e xenofobia ou à criação de um inimigo interno.

Nossa vizinha Bolívia, por exemplo, sofreu inúmeras críticas quando adotou uma política de nacionalização de setores estratégicos, como o de exploração de hidrocarbonetos. Hoje, vê a grande mídia se calar para evitar maiores holofotes no país que criou um modelo nacionalista e inclusivo de desenvolvimento econômico.

Entre 2007 e 2012, por exemplo, os bolivianos experimentaram um aumento anual médio de 4,8% em seu PIB. O próprio FMI, antes crítico do país, já reconheceu que as políticas de Evo Morales ajudaram a aumentar em quase três vezes a renda média da população e reduziram a pobreza e a desigualdade.

Os elogios vieram apesar das críticas ao órgão pelo presidente boliviano, que já afirmou que o FMI deveria ressarcir seu país pelos danos causados com os 20 anos de imposição de medidas neoliberais.

O próprio nacionalismo cubano, apesar das críticas, com seu tom anti-imperialista e anticapitalista, trouxe inúmeros benefícios para o país. Afinal, a Revolução Cubana alçou um país agrário de população miserável a uma nação que praticamente erradicou o analfabetismo, incluiu negros nas universidades e criou um sistema de saúde que é exemplo para o mundo todo.

Na Europa, também, apesar do que alardeia a grande mídia, não é só a extrema direita que adota o discurso nacionalista.

Desde a crise de 2008, a esquerda europeia tem crescido com um discurso antiglobalista, antiliberal e que reconhece as injustiças regionais da UE. Por lá, a posição “anti-europeísta”, como se diz, não é exclusiva da extrema direita, muito menos ligada apenas ao discurso xenófobo.

Foi com esse discurso, por exemplo, que Portugal fez aquilo que, para o povo grego, ficou apenas no desejo. O país governado pelo Bloco de Esquerda peitou o FMI e a UE ao recusar as medidas de austeridade como forma de superar a crise de 2008. Hoje, os dois órgãos, principalmente em suas figuras alemãs, têm de engolir seco e ceder elogios à economia de base socialista portuguesa. Além disso, o país adota uma série de medidas que impulsionaram o turismo por lá e aumentaram a receptividade portuguesa aos estrangeiros.

São exemplos de nacionalismo como esses que a esquerda brasileira deveria observar. Seria um ótimo contraponto ao patriotismo preconceituoso que vem crescendo na direita liberal de nosso país.

Desse modo, a esquerda brasileira deve trabalhar para tomar o discurso nacionalista do país para si, ressignificando-o. É preciso agregar à bandeira brasileira valores esquecidos como a igualdade entre as variadas etnias e gêneros, a redução das desigualdades regionais e de classe e o respeito aos estrangeiros.

É necessário, também, que o sentimento verde e amarelo revisite sua própria história para, enfim, reconhecer que a insistência em políticas liberais nos torna cada dia mais dependentes e subordinados aos países mais desenvolvidos.

Por fim, a esquerda brasileira deveria criar um sentimento nacionalista colado a um projeto político que passe pela criação de uma indústria nacional que torne nossa economia independente, sem se esquecer de que tal processo deve ser feito de forma popular, para que nenhum brasileiro (ou quem quer que escolha morar nesse país) fique para trás.

Um nacionalismo que negue, enfim, qualquer forma de exploração.

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Esquerda deveria ressignificar nacionalismo brasileiro 

Bifo: ¿Es política la generación millennial?

“Dos artículos dedicados a los millennials salieron el mismo día en el New York Times y en El País. El artículo de  Sarah Leonard y el de  Antonio Navalónhablaban del mismo tema, pero de formas completamente distintas, incluso opuestas. Navalón tenía un tono arrogante y vagamente reaccionario: según él, losmillennials no han producido ninguna idea que no sea relativa a una nueva aplicación para el smartphone y no tienen ninguna opinión política.

Sarah Leonard observa, por el contrario, que los más jóvenes han votado mayoritariamente por Sanders, Corbyn y Mélenchon, es decir, tres viejos políticos con un nivel cultural incomparablemente superior a sus oponentes, que reivindican los valores políticos del socialismo y encarnan la coherencia ética de quien no se ha plegado al conformismo de la izquierda neoliberal.

¿Existe la generación millennial?

Antes de preguntarme quién de los dos tiene razón, me pregunto si es legítimo el uso de la noción de generación. ¿Se trata de un concepto sociológicamente fundado o políticamente homogéneo? Diría que no. No existe ninguna homogeneidad generacional sobre el plano de las expresiones culturales o políticas. Existe sin embargo una homogeneidad generacional que depende del contexto tecno-antropológico. Y esto cuenta muchísimo, naturalmente, sobre todo cuando estamos hablando del salto técnico gigantesco que representa hoy la transición digital.

Por tanto, es legítimo indagar en la especificidad de la generación conectiva que los periodistas han llamado “generación millennial”. Pero no me parece igualmente legítimo identificarla como si expresase comportamientos homogéneos sobre el plano electoral o el plano de la acción consciente.

El artículo de Sarah Leonard subraya el hecho de que esta generación está debiendo pagar las consecuencias de la agresividad neoliberal y busca ahora volver a vincularse a la generación de sus abuelos, experimentando un cierto disgusto por la miseria psíquica y moral de la de sus padres, que han aceptado el chantaje neoliberal. El artículo de Navalón me parece superficial e irritante, pero tampoco la aproximación de Leonard me convence del todo. Refiriéndose al comportamiento político, Navalón destaca el rechazo a comprometerse políticamente y la tendencia abstencionista de los más jóvenes, mientras que Leonard dice lo contrario. ¿Tienen razón ambos? ¿O ninguno de los dos?

La generación precaria, a pesar de estar capturada en el universo técnico conectivo, ha comenzado a rechazar la hipocresía de la izquierda neoliberal que la ha condenado a la precariedad y a los salarios de miseria en nombre del interés exclusivo del capital financiero. Pero me pregunto si en muchos casos los más jóvenes no manifiestan un desinterés total por la política por considerarlo un arte del pasado que no parece tener ya ninguna eficacia sobre el presente, reducido como está a ser un ritual de legitimación de los poderes financieros.

En los últimos días, todo el mundo se apresta a saludar al triunfador de las elecciones francesas, pero el acontecimiento significativo no ha sido la falsa victoria del polo de poder que promete desplegar una nueva ofensiva contra los trabajadores. El evento extraordinario ha sido que el 57% de los franceses no ha votado. Macron representa una minoría del electorado francés. Lo ha votado la burguesía de izquierda y la burguesía de derecha que pretenden hacer pagar a los trabajadores cada vez más precarios las cuentas de la sumisión al dominio financiero europeo.

Sufrimiento, malestar, precariedad

En el último decenio, he estudiado la primera generación conectiva (mis libros están dedicados sobre todo a este objeto misterioso). Pero no me he propuesto en absoluto definir a los millennials en términos políticos. Si queremos encontrar un elemento de especificidad es mejor no centrarse en las preferencias electorales, porque es un dato completamente superficial. Hay que enfocar más bien el sufrimiento, la soledad y el suicidio. Son el sufrimiento, el malestar y la precariedad como impotencia y como fragilidad las características que nos permiten, no tanto tener una definición, como aferrar un rasgo de subjetivación posible de la generación conectiva.

Tras la victoria de Trump muchas universidades americanas organizaron distintas iniciativas de apoyo psicológico para los estudiantes traumatizados por el giro que ha dado su país. Algo impensable para mi generación: habríamos arrasado la ciudad a hierro y fuego para detener el avance del fascismo. Pero sería un idiota si en esta oposición generacional me quedase con un aprecio reaccionario por la mitología agresiva de mi generación. La trayectoria de formación de la conciencia es indisociable de contextos técnicos y culturales que son totalmente diferentes.

En Estados Unidos se habla de snow flake generation (generación copo de nieve) para proponer una nueva definición de los súper-observados millennials. La fragilidad de un copo de nieve es una característica psicológica, tal vez estética, sólo de manera muy indirecta política.

Los blairistas-macronistas deberán responder ante el tribunal de la historia (que no existe) por la destrucción psíquica y la instrumentalización de una generación que contiene potencialidades inmensas, pero no ha sabido transformarlas en un proceso consciente y organizado. La izquierda neoliberal ha engañado a las generaciones emergentes, que ahora parecen empezar a comprender el truco y ya no se dejan capturar tan fácilmente en el mito idiota de la competición a muerte con fines de crecimiento y la auto-explotación.

Cuando los millennials se vuelvan capaces de transformar su fragilidad en autonomía comenzará quizá un proceso verdadero de liberación, que no pasa por las elecciones (o no sólo por ahí), sino que deberá involucrar la auto-organización del saber y la tecnología, la distribución de la riqueza, la libertad del trabajo y la emancipación del hacer.

Cuando los millennials se liberen de las mentiras en las cuales el blairismo-macronismo los ha enjaulado, cuando encuentren el camino hacia la amistad que hoy tanto les asusta, entonces tal vez la salida del infierno capitalista aparecerá como algo más simple de lo previsto: esta vía de salida coincide con la solidaridad y conduce a liberar la única potencia de la que disponemos (los millennials más que todas las generaciones precedentes): la inteligencia colectiva, la amistad en el conocimiento.”

Una entrevista a Franco Berardi (Bifo) en ‘Interferencias’, por Amador Fernández-Savater:  “Una sublevación colectiva es antes que nada un fenómeno físico, afectivo, erótico”.

 

http://www.eldiario.es/interferencias/millennials-politica-precariedad_6_662543740.html

Fraser denuncia a captura da esquerda pelo “neoliberalismo progressista”

O fim do neoliberalismo “progressista”

“Eleição de Trump é mais uma dentro da série de insubordinações políticas dramáticas do colapso da hegemonia liberal”

Nancy Fraser
A eleição de Donald Trump é mais uma dentro de uma série de insubordinações políticas dramáticas que, juntas, sinalizam um colapso da hegemonia neoliberal. Nestas insubordinações, podemos citar, entre outras, o voto Brexit no Reino Unido, a rejeição das reformas do Renzi na Itália, a campanha de Bernie Sanders para a nomeação do Partido Democrata nos EUA e o apoio crescente à Frente Nacional na França, entre outros.Embora se diferenciem em ideologia e objetivos, esses motins eleitorais compartilham um objetivo comum: rejeitar a globalização corporativa, o neoliberalismo e a classe política que promoveu eles. Em todos os casos, os eleitores dizem “não!” à letal combinação de austeridade, livre comércio, dívida predatória e trabalho precário e mal remunerado, que caracterizam o capitalismo financeirizado contemporâneo. Seus votos são uma resposta à crise estrutural a esta forma de capitalismo, que primeiro entrou em plena visão com a quase fusão da ordem financeira global em 2008.Até recentemente, no entanto, a resposta mais comum a esta crise era o protesto social dramático e animado – com certeza –, mas em grande parte efêmero. Os sistemas políticos, ao contrário, pareciam relativamente imunes, e ainda controlados por funcionários do partido e elites do establishment, pelo menos nos Estados capitalistas poderosos, como os EUA, o Reino Unido e a Alemanha.Agora, porém, as ondas de choque eleitoral reverberam em todo o mundo, inclusive nas cidadelas das finanças globais. Aqueles que votaram em Trump, bem como a favor do Brexit, ou contra as reformas italianas, se levantaram contra os seus senhores políticos. Zombando do establishment dos partidos, eles negaram o sistema que corroeu suas condições de vida nos últimos trinta anos. O que surpreende não é que eles tenham feito isso, mas que levou tanto tempo.

No entanto, a vitória de Trump não é apenas uma revolta contra as finanças globais. O que seus eleitores rejeitaram não era o neoliberalismo “tout court” (sem mais), mas o neoliberalismo progressista. Isto pode soar para alguns como um oximoro, mas se trata de uma alienação, ainda que perversa, muito real: é a chave para compreender os resultados das eleições dos EUA e, talvez, entender o desenvolvimento dos acontecimentos em outros lugares também.

Na sua forma norte-americana, o neoliberalismo progressista é uma aliança da corrente principal dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ), por um lado; e altos setores empresariais “simbólicos” e serviços (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood), por outro. Nesta aliança, as forças progressistas estão efetivamente unidas às forças do capitalismo cognitivo, especialmente a financeirização. No entanto, involuntariamente, os primeiros emprestam seu carisma a este último. Ideais como a diversidade e o “empoderamento”, que, em princípio, poderiam servir para fins diferentes, agora lustram políticas que devastaram a indústria e o que antes eram vidas de classe média.

O neoliberalismo progressista se desenvolveu nos EUA durante estas últimas três décadas e foi ratificado pela vitória eleitoral de Bill Clinton à presidência, em 1992. O ex-presidente estadunidense foi o engenheiro-chefe e padronizador dos “Novos Democratas”, o equivalente estadunidense do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair. Em vez da coalizão do New Deal entre os operários industriais sindicalizados, afro-americanos e classe média urbana, Clinton forjou uma nova aliança de empresários, moradores de condomínios, novos movimentos sociais e jovens: todos proclamando orgulhosos sua autenticidade moderna e progressista, amante da diversidade, multiculturalismo e dos direitos das mulheres. Mesmo quando endossava tais noções progressistas, o governo de Clinton cortejou Wall Street.

Passando o controle da economia para a Goldman Sachs, desregulou o sistema bancário e negociou os acordos de livre comércio que aceleraram a desindustrialização. O que se perdeu ao longo do caminho foi o Cinturão Industrial (que engloba estados norte-americanos de grande produção industrial, no nordeste dos EUA), em outro momento a fortaleza da democracia social do New Deal, agora a região que entregou o colégio eleitoral a Donald Trump. Essa região, junto com os novos centros industriais do Sul, teve um grande impacto quando a financeirização desenfreada se desenrolou ao longo das duas últimas décadas.

Continuadas por seus sucessores, incluindo Barak Obama, as políticas de Clinton degradaram as condições de vida de todos os trabalhadores, mas especialmente dos empregados na produção industrial. Em suma, o governo Clinton tem uma grande parte da responsabilidade pelo enfraquecimento dos sindicatos, pelo declínio dos salários reais, pelo aumento da precariedade do trabalho e pelo aumento da família de dois assalariados, em vez do salário familiar.

Como isto sugere, finalmente, o assalto à Previdência foi encoberto por um verniz de carisma emancipatório, emprestado dos novos movimentos sociais. Durante todos os anos em que abriram uma cratera após outra na indústria, o país estava animado e entretido por uma lorota de “diversidade”, “empoderamento” e “não-discriminação”. Identificando o “progresso” com a meritocracia em vez de igualdade, com esses termos, equipararam “emancipação” com a ascensão de uma pequena elite de mulheres “talentosas”, minorias e gays na hierarquia corporativa que “quem vence, fica com tudo”, em vez da abolição desta última.

Este entendimento liberal-individualista do “progresso” substituiu as compreensões mais expansivas, anti-hierárquicas, igualitárias, sensíveis às classes e anticapitalistas da emancipação que floresceram nos anos 60 e 70. Quando a Nova Esquerda diminuiu, sua crítica estrutural da sociedade capitalista desvaneceu, e a mentalidade individualista-liberal tradicional do país se reafirmou, enquanto as aspirações dos “progressistas” e dos autoproclamados esquerdistas sediciosos contraíram-se. Mas o que fechou o acordo foi a coincidência entre esta evolução e a ascensão do neoliberalismo. Um partido inclinado a liberalizar a economia capitalista encontrou seu companheiro perfeito em um feminismo empresarial focado na “disposição para liderar” no leaning in ou “rachar o teto de vidro”.

O resultado foi um “neoliberalismo progressista”, que misturou truncados ideais de emancipação e formas letais de finaceirização. Foi essa a amálgama que os eleitores de Trump rejeitaram na totalidade. Entre os que ficaram para trás neste novo e corajoso mundo cosmopolita estavam trabalhadores industriais, com certeza, mas também gerentes, pequenos empresários e todos os que confiavam na indústria no Cinturão Industrial e o do Sul, bem como populações rurais devastadas pelo desemprego e pelas drogas. Para estas populações, o prejuízo da desindustrialização foi agravado pelo insulto do moralismo progressista, que se acostumou a considerá-los culturalmente atrasados.

Rejeitando a globalização, os eleitores de Trump também repudiaram o liberalismo cosmopolita identificado com ela. Para alguns (apesar de não todos), ficaram a um pequeno passo de culpar pela sua pior condição de vida a correção política, as pessoas de cor, os imigrantes e os muçulmanos. A seus olhos, as feministas e Wall Street eram farinha do mesmo saco, perfeitamente unidos na figura de Hillary Clinton, candidata democrata na última eleição.

O que tornou possível esta combinação foi a ausência de uma verdadeira esquerda. Apesar de explosões periódicas como o Occupy Wall Street, que se revelou efêmero, não houve uma presença forte da esquerda nos Estados Unidos por várias décadas. Nem havia uma narrativa de esquerda abarcadora que pudesse vincular as reivindicações legítimas dos partidários de Trump com uma crítica efetiva da financeirização, por um lado, e com uma visão antirracista, antissexista e anti-hierárquica da emancipação, por outro.

Igualmente devastadoras foram as potenciais ligações entre o mundo do trabalho e os novos movimentos sociais. Separados uns dos outros, os polos indispensáveis de uma esquerda viável estavam a quilômetros de distância, até o ponto de chegarem a parecer antagônicos.

Ao menos até a notável campanha de Bernie Sanders nas primárias, que lutou por uni-los logo da relativa alfinetada da consigna “Vidas Negras Importam”. Fazendo estalar o senso comum neoliberal reinante, a revolta de Sanders foi, no lado Democrata, em paralelo a Trump. Assim como Trumo conseguiu dar uma volta no establilshment Republicano, Sandes esteve a ponto de derrotar a sucessora ungida por Obama – Hillary Clinton –, cujos apparatchiks (funcionários em tempo integral) controlavam todos e cada um dos meios sob poder do Partido Democrata.

Sanders e Trump arrebataram uma grande maioria de eleitores americanos. Mas apenas o populismo reacionário de Trump sobreviveu. Enquanto ele facilmente derrotou seus rivais republicanos, incluindo o favorito dos grandes doadores de campanha e os chefes do Partido, a insurreição Sanders foi efetivamente controlada por um Partido Democrata muito menos democrático. Na época da eleição geral, a alternativa de esquerda já havia sido suprimida. Restava a escolha de “o tome ou o deixe”, entre populismo reacionário e neoliberalismo progressista. Quando a chamada esquerda cerrou as fileiras com Hillary Clinton, a sorte estava lançada.

No entanto, a partir deste ponto, esta é uma escolha que a esquerda deve rejeitar. Em vez de aceitar os termos em que as classes políticas nos apresentam o dilema que opõe emancipação à proteção social, deveríamos trabalhar para redefini-las, recorrendo ao vasto e crescente fundo de convulsão social contra a ordem presente. Em vez de nos colocarmos ao lado da financeirização-com-emancipação contra a proteção social, o que devemos fazer é construir uma nova aliança de emancipação e proteção social contra a  financeirização.

Nesse projeto, que é baseado no que foi construído por Sanders, a emancipação não significa diversificar a hierarquia da empresa, mas sim aboli-la. E prosperidade não significa aumentar o valor das ações ou lucros empresariais, mas os pré-requisitos materiais de uma boa vida para todos. Esta combinação continua a ser a única resposta de princípios e vencedora na conjuntura atual.

Eu, por exemplo, não derramei nenhuma lágrima pela derrota do neoliberalismo progressista. É verdade: há muito a temer de uma administração Trump, anti-imigrante, racista e antiecológica. Mas não devemos lamentar, nem a implosão da hegemonia neoliberal nem o rompimento do mão de ferro do “Clintonismo” sobre o Partido Democrata.

A vitória de Trump é uma derrota da aliança entre a emancipação e a financeirização. Mas este presidente não oferece nenhuma solução para a crise atual, nenhuma promessa de um novo regime, nenhuma hegemonia segura. O que enfrentamos é, sim, um intervalo entre dois reinados, uma situação aberta e instável em que corações e mentes estão à altura. Nesta situação, não há apenas perigo, também oportunidade: a chance de construir uma nova Nova Esquerda.

Se isso acontecer dependerá, em parte, de os progressistas que apoiaram a campanha de Hillary serem capazes de fazer um sério exame de consciência. Eles precisam se livrar do mito, confortável, mas falso, de que perderam diante de uma “quadrilha deplorável” (racista, misógina, homofóbica e islamofóbica) auxiliados por Vladimir Putin e pelo FBI. Terão de reconhecer a sua parte de culpa pelo sacrifício da causa da proteção social, do bem-estar material e da dignidade da classe trabalhadora, a uma falsa interpretação de emancipação entendida em termos de meritocracia, diversidade e empoderamento. Precisarão pensar profundamente sobre como poderíamos transformar a economia política do capitalismo financeirizado revivendo o slogan de Sanders – “socialismo democrático” – e imaginando o que poderia significar no século XXI. Necessitarão, sobretudo, chegar à massa de eleitores Trump que não são nem racistas nem perto da extrema-direita, mas as vítimas de um “esquema fraudulento”, que podem e devem ser recrutados para o projeto antineoliberal de uma esquerda rejuvenescida.

Isso não significa silenciar preocupações sobre racismo ou sexismo. Mas isso significa mostrar como essas antigas opressões históricas encontram novas expressões e fundamentos hoje, no capitalismo financeirizado. Rejeitando o pensamento falso e de soma zero que dominou a campanha eleitoral, devemos relacionar os danos sofridos pelas mulheres e pessoas de cor (negros, latinos, árabes, indígenas etc) àqueles vivenciados por muitos que votaram em Trump.

Dessa forma, uma esquerda revitalizada poderia lançar as bases para uma nova e poderosa coalizão comprometida a lutar por todos.

Nancy Fraser é professora de Filosofia e Política na New School for Social Research em Nova Iorque. Seu último livro é Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis (Londres, Verso, 2013). 

Fonte: http://www.sinpermiso.info/textos/el-final-del-neoliberalismo-progresista 

https://www.brasildefato.com.br/2017/01/27/o-fim-do-neoliberalismo-progressista/

“A esquerda está viciada em seu próprio conforto” _ Clarisse Gurgel

MATÉRIA FUNDAMENTAL SOBRE MOBILIZAÇÃO POLÍTICA! Leitura obrigatória para pensarmos “O QUE FAZER?”
 
“A esquerda está viciada em seu próprio conforto”
 
Professora do departamento de Estudos Políticos da UniRio, Clarisse Gurgel faz a chamada “crítica pela esquerda” dos partidos e dos movimentos organizados hoje no Brasil. Para Gurgel, formada em Artes Cênicas e doutora em Ciência Política pela UERJ, essas organizações centram suas forças em eventos performáticos, como passeatas, manifestações e atos, deixando em segundo plano o trabalho de formação política em sua base.
 
Ao tomar de empréstimo termos da psicanálise e do teatro, ela identifica também uma grande dificuldade desses setores em aceitar críticas. “A esquerda precisa ser mais humilde e acolher a diversidade de métodos e de formas de pensar. Hoje, ela está viciada no próprio conforto e qualquer sujeito que a critique é expurgado”.
 
Na entrevista a seguir, ela analisa o modus operandi da esquerda hoje, o legado de junho de 2013 e a greve geral de 28 de abril.
 
CartaCapital: No artigo “Ação performática: sintoma de uma crise política”, você apresenta a ideia que a ação performática está sendo usada como tática preferencial da esquerda hoje no Brasil. O que é ação performática? Como ela se manifesta nos dias de hoje?
Clarisse Gurgel: O termo vem do teatro e da ideia de performance teatral. A performance tem esse caráter de simular algo extraordinário, fora do cotidiano. É uma ação efêmera, pouco ensaiada, que ocupa o espaço público também de uma forma pouco usual ou regular.
 
A ideia de me apropriar do teatro para descrever como a esquerda atua era uma tentativa de me apropriar do tempo e do espaço dessa forma especial de teatralização, dessa forma específica de fazer política hoje.
 
CC: Que forma de fazer política é essa?
CG: Em resumo, é você simular que está sendo espontâneo e atuar de forma efêmera, ou seja, sem continuidade. É priorizar eventos, como atos, marchas, passeatas, abraços a monumentos etc. O centro no evento é tão grande que a esquerda cai na própria armadilha de, por exemplo, ocupar um espaço e depois não saber sair dele. E, ao sair, acabar derrotada ou desgastada.
 
A ação da esquerda hoje não tem muitos desdobramentos, é concentrada no tempo presente. O curioso disso é que essa tentativa de simular uma espontaneidade é, na verdade, uma tentativa de fugir de um estigma que associa a esquerda ao autoritarismo, ao stalinismo, ao burocratismo. Tentando fugir desse estigma, o diagnóstico que eu faço é que a esquerda acaba por reforçá-lo.
 
CC: Como assim?
CG: Essa tentativa de fugir do estigma do burocratismo faz com que a esquerda priorize a política como evento. Só que, assim, ela mesma se burocratiza mais, porque deixa de dedicar o seu tempo a um trabalho continuado de formação política, de propaganda e de agitação e passa a se concentrar única e exclusivamente a organizar o evento, descolando-se ainda mais de suas bases sociais.
 
Esse estigma vem, em especial, do stalinismo. O stalinismo é um fenômeno que merece mais atenção, porque, muitas vezes, ele é resumido a um processo de burocratização. Mas a leitura que se fazia do stalinismo como um fenômeno de excesso de burocracia e de uma rigidez muito grande por parte do partido bolchevique gerou uma reação que eu identificaria em dois fenômenos.
 
CC: Quais?
CG: Um é a rejeição à própria forma de organização em partido. A outra é uma preponderância das bandeiras identitárias. Acho que a gente vive esse reflexo até hoje: a rejeição ao partido e a preponderância das pautas identitárias como contraponto a categorias mais universalizantes, como a própria categoria de classe.
 
Então, em face disso, o que acontece é um movimento, em especial, que tem como vanguarda o movimento trotskista, que vai vir na contramão desse diagnóstico da burocratização. O trotskismo tem como bandeira o combate à burocracia do partido e em especial o burocracismo. A burocracia é um mecanismo de segurança de qualquer organização coletiva, mas o burocratismo, a exacerbação da burocracia passa a ser alvo do trotiskismo.
 
Em especial, nas décadas de 80 e 90 para cá, o trotskismo passa a ser a corrente hegemônica no campo da esquerda no mundo, em especial, naqueles partidos que tem referencial no bolchevismo. Esse trotskismo vem acompanhado de um receio, um certo constrangimento, e eu aponto até para um aspecto meio patológico da rejeição a sua própria forma, a forma partido. Num sujeito coletivo, a rejeição a sua própria forma gera consequências graves.
 
CC: Quais são elas?
CG: A rejeição à sua própria forma, que aponto nas legendas revolucionárias ou contra-hegemônicas, leva o partido a atuar de uma forma que parece lembrar esses fenômenos de compulsão, identificados pela psicanálise, de infligir em si mesmo certos ferimentos. Isso marca uma presença, você se sente existindo e, ao mesmo tempo, produz o efeito de chamar atenção para si. Mas é o que se chama de Passagem ao Ato.
 
Uma repetição de comportamentos que revela um desencontro patológico do sujeito com seu próprio corpo, sem um exercício de elaboração, por uma suposta perda da influência de um Grande Outro. Algo que nos faz lembrar a bulimia, a anorexia e tem seu extremo no suicídio.
 
Mas há outra forma de compulsão que se chama na teoria psicanalista de “acting out”. O acting out é uma forma de repetição em que o sujeito finge agir espontaneamente, mas está repetindo algo que ele já fez, na tentativa de que aquele que lhe negou a escuta, o ouça dessa vez.
 
E esse que lhe nega a escuta eu identifico como a grande mídia, que não deixa de ser um grande outro. Por isto, a ação perfomática estaria mais próxima de ser um Acting Out.
 
CC: Pode dar um exemplo?
CG: Há um exemplo muito interessante: um ato em apoio aos iraquianos na época da ocupação americana no país, em 2003. Na ocasião, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush foi até o Iraque e um jornalista arremessou um sapato em sua direção.
 
No Rio de Janeiro, foi organizado um ato em apoio aos iraquianos em frente à embaixada americana. E, para o ato, se organizou uma atividade em que os militantes jogariam sapatos na embaixada. É interessante porque era para mostrar que aquilo era espontâneo, fruto do acirramento dos ânimos dos manifestantes, mas os próprios manifestantes levaram um par extra de sapatos para jogar – e aqueles que estavam efetivamente com os ânimos acirrados e pegaram carona naquele preparativo, quiseram jogar seus próprios sapatos nas vidraças da embaixada.
 
Nesse momento, os organizadores disseram no microfone para os militantes não jogarem na fachada, mas do lado, porque tinha sido combinado com os policiais que não haveria danos ao patrimônio.
 
Esse é uma ilustração perfeita do que é a tentativa de entrar em uma pauta midiática sem criar danos reais, na perspectiva de ser bem narrado – e descolado completamente dos anseios efetivos daqueles que estavam dispostos a demonstrar apoio aos iraquianos.
 
É um caso exemplar de “acting out”, porque é um sujeito repetindo um ato, na tentativa de ser ouvido.
 
O problema é que, quando você procura se desimplicar do próprio ato, na expectativa que o outro lhe dê sentido, você fica muito refém do outro. E a grande mídia não é companheira na hora de narrar os atos da esquerda, em especial da esquerda contra-hegemônica.
 
CC: É possível identificar isso em 2013, quando houve grandes atos com a presença da mídia
CG: Sem dúvida. Acho que 2013 é o ovo da serpente de 2017. O que vivemos em 2013 foi uma experiência estritamente de agitação, que é você ir para a rua e denunciar. Quando você resume a prática política à mera agitação, sem um conteúdo que signifique propagar e enraizar esse discurso no imaginário, o que acontece é que aqueles que estão mais organizados e tem mais estrutura, pegam carona e imprimem à agitação o sentido que querem.
 
CC: Como isso aconteceu em 2013?
CG: O ato começou com um movimento que tinha uma bandeira clara, contra o aumento da tarifa de ônibus. Era um movimento de uma vanguarda de jovens, que, mesmo rejeitando os partidos, era satélite deles, e que se reivindicavam autônomos e horizontais.
 
Aquele ano começa com a expressão disso e com os partidos pegando carona ali, tentando levar para o movimento estudantil e a classe trabalhadora as repercussões da organização desses movimentos sem estrutura. Com a aproximação dos partidos, começam as tensões, que são herdeiras disso de que ainda temos dívida, em relação a elaborar a respeito, que é essa herança do stalinismo. Então, os conflitos internos à esquerda começam a surgir, entre organizações sem estrutura e os partidos da vanguarda.
 
Paralelo a isso, os setores conservadores começam também a ocupar as ruas e pegar carona também no movimento, entendendo, e a direita cada vez mais entende, que ela precisa recuperar – curiosamente – o repertório da esquerda.
 
Ela começa a recuperar, não é nem fazer uso, é recuperar o repertório da esquerda. A palavra de ordem “vá para a rua” quem propaga é a direita e, sem dúvida, como fruto de uma ausência de quadros na direita. Setores conservadores vão para as ruas na perspectiva de deslocar o espaço da política para a rua, para fazer dali um terreno fértil em que surja um quadro (que até agora efetivamente não surgiu).
 
De lá para cá, o que temos é um processo de acirramento efetivo dos ânimos, quase como um clima de pânico generalizado e fantasioso por parte da direita e classe média que começa a perder espaço em face da crise econômica. Esse atores ocupam as ruas e vão dando volume para qualquer palavra de ordem ou “significante mestre”, para usar um termo em voga.
 
CC: O que é isso?
CG: Significante mestre é qualquer som que tenha o efeito de uma mãe dizer a uma criança: “é porque é”. Isso é significante mestre. A criança pergunta o porquê e você responde “porque sim”. O significante mestre tem esse poder. Em meio a uma multidão volumosa, aqueles que têm recursos, como a FIESP, por exemplo, têm plenas condições de colar ali o significante mestre que quiser. Por exemplo, bordões do antipetismo ou dizer que o Brasil vai virar Cuba.
 
CC: E com isso a luta pela tarifa de ônibus fica para trás.
CG: Sim. Hoje vivemos o reflexo de 2013: uma conjuntura em que tem uma massa de trabalhadores que não se espelham em nada e uma esquerda perdeu um aspecto que era uma marca dela, que é a disciplina e a organização. Nesse contexto, qual é o melhor quadro político hoje?
 
É essa figura que não espelha ninguém e se revela um indisciplinado por excelência. Ou seja, aquele que não está vinculado a um partido e que age por si só. Por isso, figuras como o prefeito de São Paulo, João Doria, colam muito bem hoje. Ele não tem lealdade alguma a qualquer estrutura e tem uma coisa que, no contexto de crise econômica, é aquilo que podemos dizer que é a esperança de um povo que anseia pelo nada: o sucesso.
 
CC: Dentro desse contexto, como você analisa os movimentos de “greve geral” realizados em 28 de abril?
CG: Não se usa o termo “greve geral” para anunciar algo que ainda vai acontecer, mas, sim, para olhar retroativamente e descrever aquele fenômeno de paralisação, caso cresça e ganhe aderência de diversas categorias, como uma greve geral.
 
Quando você anuncia uma greve geral, provavelmente estaremos diante de um uso performático de um termo, e de um termo importante para a classe trabalhadora, que não pode ser usado de forma irresponsável.
 
É interessante, no dia da greve, o Michel Temer lançou o “cartão reforma”, um cartão para ajudar em obras. E, sem dúvida, ele tentou disputar o significado de “reforma”. No dia do ato contra as reformas trabalhista e previdenciária, ele lança o cartão reforma. Esse uso pouco honesto de um significante que é de peso, lembra um pouco o uso, pouco honesto também, por parte da esquerda do termo greve e, em especial, greve geral.
 
Nós estamos vendo, sucessivas vezes, o uso do termo greve sendo feito pela esquerda de forma irresponsável. Quando, por exemplo, setores da educação aderem a uma greve já com prazo para terminar, que é a data de votação do orçamento do governo federal no Congresso. Imagine o que é começar uma greve já com prazo de validade: isso esvazia de sentido a palavra greve.
 
Por isso digo que não é só a ação performática, a própria narrativa é também performática. Então, fazer uma greve com prazo de validade chega a ser cômico, porque o patronato apenas espera.
 
Eu não posso dizer também que, na conjuntura de desorganização que estamos, que a paralisação do dia 28 de abril não foi um sucesso. Para a conjuntura foi. E também não vou fechar os olhos para um dado novo, que é a adesão de setores da sociedade civil não integrados à vanguarda ou habituados à militância e a atuação coletiva, como, por exemplo, os professores da rede privada.
 
Mas eu queria registrar um ponto sintomático de tudo isso. Seja a adesão de setores novos ou a paralisação de setores de vanguarda, nenhuma das ações conta com organicidade necessária para os governantes sentirem que a gente não só resiste.
 
Existe uma diferença entre resistir e se insurgir. E quando a esquerda rejeita a forma partido, você tende a duas ações: uma delas é a de resistência, ou seja, imprimir obstáculos em face de uma certa política; e o outro é produzir modos de vida paralelos ao que existe hegemonicamente.
 
Essas duas formas de ação – produzir modos de vida paralelos e resistir produzindo obstáculos – não incidem diretamente na estrutura de poder, que permanece existindo. Ela pode não avançar em face desses obstáculos mas, fora isso, ela fica intacta.
 
E perde-se de perspectiva a ação insurgente, que é colocar em ameaça a própria estrutura de poder. Isso é outro aspecto que se perdeu em face da crítica à forma partido.
 
CC: Um movimento essencialmente performático é capaz de fazer oposição real a um governo como o de Michel Temer?
CG: Eu não acredito. Eu não tenho dúvidas de que 2013 foi o ovo da serpente chamada Michel Temer, que nem se chama Temer, mas, sim, PSDB. Mas eu não digo que as manifestações da direita foram as responsáveis por derrubar a Dilma.
 
Na verdade, a estratégia de derrubar a Dilma impulsionou os conservadores a ficarem nas ruas. Essa é a diferença de você entender um movimento organizado cuja ação na rua é fruto do acirramento. Quando a esquerda parte da ação da rua, ela está invertendo o processo. Ir para a rua é o ápice.
 
A esquerda precisa recuperar a ação que fazia nos locais de trabalho, nas associações de moradores, nos núcleos partidários, nos movimentos sociais.
 
Isso se perdeu e, atualmente, o sujeito que faz esse trabalho são as igrejas, oferecendo serviços de assistência social e fazendo até o papel de mediadora de conflitos, entre traficantes e moradores da favela. É claro que igreja e tráfico não deixam de ser braços do capital. Isto facilita muito o trabalho destas instituições. Mas, tal como a igreja, a esquerda precisa encontrar meios de voltar a estar presente cotidianamente na vida dos trabalhadores. De início, fazendo as vezes da face propositalmente ausente do Estado. Este é um trabalho primário, de dia a dia
 
CC: Esse diagnóstico de que a esquerda precisa voltar para a base não é novo e, na verdade, já virou um lugar comum. Por que é tão difícil colocar esse discurso em prática?
CG: Em primeiro lugar, para fazer isso é preciso que os quadros da esquerda não façam só a autocrítica pública, mas imprimam um desdobramento prático a autocrítica.
 
E como fazer esse desdobramento? Os quadros precisam estar dispostos a acolher, em seus aparelhos, sindicatos, centros acadêmicos, diretórios, comissões de fábrica, etc, novos membros, com mais coragem para se apresentarem às bases em nome de um partido ou organização. Porque o que está acontecendo é que a esquerda está envergonhada.
 
Quando ela vai à base é nos processos eleitorais internos, como uma eleição do sindicato. Fora disso, ela se recolhe e, vamos ser justos também, porque os próprios militantes precisam correr atrás de um ritmo de produtividade imposto pelo capital. Veja, o militante tem que responder ao patrão e também ao partido que também funciona como uma empresa, que estabelece metas para o militante. Ele precisa dar retorno sobre numero de votos, de panfletos distribuídos etc.
 
Essa numerologia do trabalho do militante, seja o trabalho para o seu patrão do capital ou para o patrão do partido, esvazia de conteúdo efetivo a prática do militante.
 
A esquerda precisa ser mais humilde, mais disposta a acolher uma diversidade de métodos e de formas de pensar porque a esquerda viciou-se em seu próprio conforto. Qualquer sujeito que critique seus métodos é expurgado. Não basta a autocrítica pública, é preciso acolher a crítica do companheiro.
 
CC: Como essas críticas são recebidas?
CG: Qualquer um que faz críticas “pela esquerda” à esquerda é visto como alguém que alimenta e favorece a direita. Quando a esquerda perceber que a crítica pela esquerda é algo que faz com que ela avance, ela avançará.
 
https://www.cartacapital.com.br/politica/a-esquerda-esta-viciada-em-seu-proprio-conforto

Mapas e ativismo urbano

“The Anti-Eviction Mapping Project is a data-visualization, data analysis, and storytelling collective documenting the dispossession of San Francisco Bay Area residents in the wake of the Tech Boom 2.0. Through digital maps, oral history work, film, murals, and community events, the project renders connections between the nodes and effects of new entanglements of global capital, real estate, high tech, and political economy. It studies the displacement of people but also of complex social worlds as certain spaces become desirable to such entanglements. Maintaining antiracist and feminist analyses as well as decolonial methodology, the project creates tools and disseminates data that contributes to collective resistance and movement building.”

http://www.antievictionmap.com/

Dispositivos Tecnopolíticos: Grafos, Linhas do Tempo e Mapas Colaborativos

Grafos 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_dos_grafos

exs:

https://onodo.org

http://news.muckety.com

http://www.theyrule.net

 

Linhas do tempo

exs:

http://www.ispringsolutions.com/blog/top-10-free-and-paid-interactive-timeline-makers/

TOP 10 Free Timeline Creation Tools For Teachers

 

Mapas Colaborativos

http://worldmap.harvard.edu

https://crowdmap.com/welcome

 

Alerta Social, que direito você perdeu hoje

Os cortes nas políticas sociais da população brasileira, promovidos pelo presidente interino Michel Temer (PMDB-SP) não são poucos. É o que denuncia o site Alerta Social, que direito você perdeu hoje?’, que noticia diariamente as ofensivas e ameaças do governo provisório. A plataforma afirma ser um espaço de “de luta e resistência contra o golpe […] que afeta principalmente os mais pobres”.

Os textos publicados fazem breves análises das propostas, Projetos de Lei (PL) e Medidas Provisórias (MP) que, de alguma forma, tem prejudicado os trabalhadores.

As recentes ameaças do governo interino de Temer como as novas regras da aposentadoria, que já passa a valer para quem tem menos de 50 anos, a tentativa de tirar o termo “distribuição de renda” nas metas do governo e a aprovação do orçamento de 2017 que limita gastos na saúde e na educação, já constam na plataforma.

“Não é possível assistir à perda de direitos e ao golpe à democracia e ao povo brasileiro sem reação”, afirma a descrição do site que é composto por pesquisadores, ativistas, especialistas,  gestores e cidadãos e cidadãs “preocupados com a ruptura no ciclo democrático e o retrocesso nas políticas sociais que se concretizam desde a tomada do governo brasileiro”.

 

Você também pode acompanhar o Alerta Social pelo FacebookTwitter eYoutube

Sabe qual direito você perdeu hoje? Site te mostra

 

http://alertasocial.com.br

Zizek em busca de uma esquerda alternativa ao estado-nação/ tradição?

“Ainda não há uma alternativa positiva de esquerda. Sabemos que o capitalismo global é um problema, mas como devemos agir para reestruturar a sociedade global? Muitos dos meus amigos latino-americanos e europeus pensam que a forma de resistir ao capitalismo é por meio de tradições e Estados Nacionais. Na Europa, uma das linhas predominantes da esquerda radical também defende essas tradições, como no caso do Brexit no Reino Unido. Eles afirmam que a União Europeia defende o capital internacional e a única forma de salvar o Estado do Bem-Estar Social é por meio de Estados Nacionais fortes. Há esquerdistas que falam na necessidade de um Socialismo Nacional, em lugar do Nacional Socialismo (Nazismo). Não acho que isso funcione, é uma catástrofe”, afirma o filósofo esloveno Slavoj Žižek.

Confira na entrevista de Miguel Martins | http://bit.ly/29OGqou