Monthly Archives: maio 2017

Fraser denuncia a captura da esquerda pelo “neoliberalismo progressista”

O fim do neoliberalismo “progressista”

“Eleição de Trump é mais uma dentro da série de insubordinações políticas dramáticas do colapso da hegemonia liberal”

Nancy Fraser
A eleição de Donald Trump é mais uma dentro de uma série de insubordinações políticas dramáticas que, juntas, sinalizam um colapso da hegemonia neoliberal. Nestas insubordinações, podemos citar, entre outras, o voto Brexit no Reino Unido, a rejeição das reformas do Renzi na Itália, a campanha de Bernie Sanders para a nomeação do Partido Democrata nos EUA e o apoio crescente à Frente Nacional na França, entre outros.Embora se diferenciem em ideologia e objetivos, esses motins eleitorais compartilham um objetivo comum: rejeitar a globalização corporativa, o neoliberalismo e a classe política que promoveu eles. Em todos os casos, os eleitores dizem “não!” à letal combinação de austeridade, livre comércio, dívida predatória e trabalho precário e mal remunerado, que caracterizam o capitalismo financeirizado contemporâneo. Seus votos são uma resposta à crise estrutural a esta forma de capitalismo, que primeiro entrou em plena visão com a quase fusão da ordem financeira global em 2008.Até recentemente, no entanto, a resposta mais comum a esta crise era o protesto social dramático e animado – com certeza –, mas em grande parte efêmero. Os sistemas políticos, ao contrário, pareciam relativamente imunes, e ainda controlados por funcionários do partido e elites do establishment, pelo menos nos Estados capitalistas poderosos, como os EUA, o Reino Unido e a Alemanha.Agora, porém, as ondas de choque eleitoral reverberam em todo o mundo, inclusive nas cidadelas das finanças globais. Aqueles que votaram em Trump, bem como a favor do Brexit, ou contra as reformas italianas, se levantaram contra os seus senhores políticos. Zombando do establishment dos partidos, eles negaram o sistema que corroeu suas condições de vida nos últimos trinta anos. O que surpreende não é que eles tenham feito isso, mas que levou tanto tempo.

No entanto, a vitória de Trump não é apenas uma revolta contra as finanças globais. O que seus eleitores rejeitaram não era o neoliberalismo “tout court” (sem mais), mas o neoliberalismo progressista. Isto pode soar para alguns como um oximoro, mas se trata de uma alienação, ainda que perversa, muito real: é a chave para compreender os resultados das eleições dos EUA e, talvez, entender o desenvolvimento dos acontecimentos em outros lugares também.

Na sua forma norte-americana, o neoliberalismo progressista é uma aliança da corrente principal dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ), por um lado; e altos setores empresariais “simbólicos” e serviços (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood), por outro. Nesta aliança, as forças progressistas estão efetivamente unidas às forças do capitalismo cognitivo, especialmente a financeirização. No entanto, involuntariamente, os primeiros emprestam seu carisma a este último. Ideais como a diversidade e o “empoderamento”, que, em princípio, poderiam servir para fins diferentes, agora lustram políticas que devastaram a indústria e o que antes eram vidas de classe média.

O neoliberalismo progressista se desenvolveu nos EUA durante estas últimas três décadas e foi ratificado pela vitória eleitoral de Bill Clinton à presidência, em 1992. O ex-presidente estadunidense foi o engenheiro-chefe e padronizador dos “Novos Democratas”, o equivalente estadunidense do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair. Em vez da coalizão do New Deal entre os operários industriais sindicalizados, afro-americanos e classe média urbana, Clinton forjou uma nova aliança de empresários, moradores de condomínios, novos movimentos sociais e jovens: todos proclamando orgulhosos sua autenticidade moderna e progressista, amante da diversidade, multiculturalismo e dos direitos das mulheres. Mesmo quando endossava tais noções progressistas, o governo de Clinton cortejou Wall Street.

Passando o controle da economia para a Goldman Sachs, desregulou o sistema bancário e negociou os acordos de livre comércio que aceleraram a desindustrialização. O que se perdeu ao longo do caminho foi o Cinturão Industrial (que engloba estados norte-americanos de grande produção industrial, no nordeste dos EUA), em outro momento a fortaleza da democracia social do New Deal, agora a região que entregou o colégio eleitoral a Donald Trump. Essa região, junto com os novos centros industriais do Sul, teve um grande impacto quando a financeirização desenfreada se desenrolou ao longo das duas últimas décadas.

Continuadas por seus sucessores, incluindo Barak Obama, as políticas de Clinton degradaram as condições de vida de todos os trabalhadores, mas especialmente dos empregados na produção industrial. Em suma, o governo Clinton tem uma grande parte da responsabilidade pelo enfraquecimento dos sindicatos, pelo declínio dos salários reais, pelo aumento da precariedade do trabalho e pelo aumento da família de dois assalariados, em vez do salário familiar.

Como isto sugere, finalmente, o assalto à Previdência foi encoberto por um verniz de carisma emancipatório, emprestado dos novos movimentos sociais. Durante todos os anos em que abriram uma cratera após outra na indústria, o país estava animado e entretido por uma lorota de “diversidade”, “empoderamento” e “não-discriminação”. Identificando o “progresso” com a meritocracia em vez de igualdade, com esses termos, equipararam “emancipação” com a ascensão de uma pequena elite de mulheres “talentosas”, minorias e gays na hierarquia corporativa que “quem vence, fica com tudo”, em vez da abolição desta última.

Este entendimento liberal-individualista do “progresso” substituiu as compreensões mais expansivas, anti-hierárquicas, igualitárias, sensíveis às classes e anticapitalistas da emancipação que floresceram nos anos 60 e 70. Quando a Nova Esquerda diminuiu, sua crítica estrutural da sociedade capitalista desvaneceu, e a mentalidade individualista-liberal tradicional do país se reafirmou, enquanto as aspirações dos “progressistas” e dos autoproclamados esquerdistas sediciosos contraíram-se. Mas o que fechou o acordo foi a coincidência entre esta evolução e a ascensão do neoliberalismo. Um partido inclinado a liberalizar a economia capitalista encontrou seu companheiro perfeito em um feminismo empresarial focado na “disposição para liderar” no leaning in ou “rachar o teto de vidro”.

O resultado foi um “neoliberalismo progressista”, que misturou truncados ideais de emancipação e formas letais de finaceirização. Foi essa a amálgama que os eleitores de Trump rejeitaram na totalidade. Entre os que ficaram para trás neste novo e corajoso mundo cosmopolita estavam trabalhadores industriais, com certeza, mas também gerentes, pequenos empresários e todos os que confiavam na indústria no Cinturão Industrial e o do Sul, bem como populações rurais devastadas pelo desemprego e pelas drogas. Para estas populações, o prejuízo da desindustrialização foi agravado pelo insulto do moralismo progressista, que se acostumou a considerá-los culturalmente atrasados.

Rejeitando a globalização, os eleitores de Trump também repudiaram o liberalismo cosmopolita identificado com ela. Para alguns (apesar de não todos), ficaram a um pequeno passo de culpar pela sua pior condição de vida a correção política, as pessoas de cor, os imigrantes e os muçulmanos. A seus olhos, as feministas e Wall Street eram farinha do mesmo saco, perfeitamente unidos na figura de Hillary Clinton, candidata democrata na última eleição.

O que tornou possível esta combinação foi a ausência de uma verdadeira esquerda. Apesar de explosões periódicas como o Occupy Wall Street, que se revelou efêmero, não houve uma presença forte da esquerda nos Estados Unidos por várias décadas. Nem havia uma narrativa de esquerda abarcadora que pudesse vincular as reivindicações legítimas dos partidários de Trump com uma crítica efetiva da financeirização, por um lado, e com uma visão antirracista, antissexista e anti-hierárquica da emancipação, por outro.

Igualmente devastadoras foram as potenciais ligações entre o mundo do trabalho e os novos movimentos sociais. Separados uns dos outros, os polos indispensáveis de uma esquerda viável estavam a quilômetros de distância, até o ponto de chegarem a parecer antagônicos.

Ao menos até a notável campanha de Bernie Sanders nas primárias, que lutou por uni-los logo da relativa alfinetada da consigna “Vidas Negras Importam”. Fazendo estalar o senso comum neoliberal reinante, a revolta de Sanders foi, no lado Democrata, em paralelo a Trump. Assim como Trumo conseguiu dar uma volta no establilshment Republicano, Sandes esteve a ponto de derrotar a sucessora ungida por Obama – Hillary Clinton –, cujos apparatchiks (funcionários em tempo integral) controlavam todos e cada um dos meios sob poder do Partido Democrata.

Sanders e Trump arrebataram uma grande maioria de eleitores americanos. Mas apenas o populismo reacionário de Trump sobreviveu. Enquanto ele facilmente derrotou seus rivais republicanos, incluindo o favorito dos grandes doadores de campanha e os chefes do Partido, a insurreição Sanders foi efetivamente controlada por um Partido Democrata muito menos democrático. Na época da eleição geral, a alternativa de esquerda já havia sido suprimida. Restava a escolha de “o tome ou o deixe”, entre populismo reacionário e neoliberalismo progressista. Quando a chamada esquerda cerrou as fileiras com Hillary Clinton, a sorte estava lançada.

No entanto, a partir deste ponto, esta é uma escolha que a esquerda deve rejeitar. Em vez de aceitar os termos em que as classes políticas nos apresentam o dilema que opõe emancipação à proteção social, deveríamos trabalhar para redefini-las, recorrendo ao vasto e crescente fundo de convulsão social contra a ordem presente. Em vez de nos colocarmos ao lado da financeirização-com-emancipação contra a proteção social, o que devemos fazer é construir uma nova aliança de emancipação e proteção social contra a  financeirização.

Nesse projeto, que é baseado no que foi construído por Sanders, a emancipação não significa diversificar a hierarquia da empresa, mas sim aboli-la. E prosperidade não significa aumentar o valor das ações ou lucros empresariais, mas os pré-requisitos materiais de uma boa vida para todos. Esta combinação continua a ser a única resposta de princípios e vencedora na conjuntura atual.

Eu, por exemplo, não derramei nenhuma lágrima pela derrota do neoliberalismo progressista. É verdade: há muito a temer de uma administração Trump, anti-imigrante, racista e antiecológica. Mas não devemos lamentar, nem a implosão da hegemonia neoliberal nem o rompimento do mão de ferro do “Clintonismo” sobre o Partido Democrata.

A vitória de Trump é uma derrota da aliança entre a emancipação e a financeirização. Mas este presidente não oferece nenhuma solução para a crise atual, nenhuma promessa de um novo regime, nenhuma hegemonia segura. O que enfrentamos é, sim, um intervalo entre dois reinados, uma situação aberta e instável em que corações e mentes estão à altura. Nesta situação, não há apenas perigo, também oportunidade: a chance de construir uma nova Nova Esquerda.

Se isso acontecer dependerá, em parte, de os progressistas que apoiaram a campanha de Hillary serem capazes de fazer um sério exame de consciência. Eles precisam se livrar do mito, confortável, mas falso, de que perderam diante de uma “quadrilha deplorável” (racista, misógina, homofóbica e islamofóbica) auxiliados por Vladimir Putin e pelo FBI. Terão de reconhecer a sua parte de culpa pelo sacrifício da causa da proteção social, do bem-estar material e da dignidade da classe trabalhadora, a uma falsa interpretação de emancipação entendida em termos de meritocracia, diversidade e empoderamento. Precisarão pensar profundamente sobre como poderíamos transformar a economia política do capitalismo financeirizado revivendo o slogan de Sanders – “socialismo democrático” – e imaginando o que poderia significar no século XXI. Necessitarão, sobretudo, chegar à massa de eleitores Trump que não são nem racistas nem perto da extrema-direita, mas as vítimas de um “esquema fraudulento”, que podem e devem ser recrutados para o projeto antineoliberal de uma esquerda rejuvenescida.

Isso não significa silenciar preocupações sobre racismo ou sexismo. Mas isso significa mostrar como essas antigas opressões históricas encontram novas expressões e fundamentos hoje, no capitalismo financeirizado. Rejeitando o pensamento falso e de soma zero que dominou a campanha eleitoral, devemos relacionar os danos sofridos pelas mulheres e pessoas de cor (negros, latinos, árabes, indígenas etc) àqueles vivenciados por muitos que votaram em Trump.

Dessa forma, uma esquerda revitalizada poderia lançar as bases para uma nova e poderosa coalizão comprometida a lutar por todos.

Nancy Fraser é professora de Filosofia e Política na New School for Social Research em Nova Iorque. Seu último livro é Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis (Londres, Verso, 2013). 

Fonte: http://www.sinpermiso.info/textos/el-final-del-neoliberalismo-progresista 

https://www.brasildefato.com.br/2017/01/27/o-fim-do-neoliberalismo-progressista/

“A esquerda está viciada em seu próprio conforto” _ Clarisse Gurgel

MATÉRIA FUNDAMENTAL SOBRE MOBILIZAÇÃO POLÍTICA! Leitura obrigatória para pensarmos “O QUE FAZER?”
 
“A esquerda está viciada em seu próprio conforto”
 
Professora do departamento de Estudos Políticos da UniRio, Clarisse Gurgel faz a chamada “crítica pela esquerda” dos partidos e dos movimentos organizados hoje no Brasil. Para Gurgel, formada em Artes Cênicas e doutora em Ciência Política pela UERJ, essas organizações centram suas forças em eventos performáticos, como passeatas, manifestações e atos, deixando em segundo plano o trabalho de formação política em sua base.
 
Ao tomar de empréstimo termos da psicanálise e do teatro, ela identifica também uma grande dificuldade desses setores em aceitar críticas. “A esquerda precisa ser mais humilde e acolher a diversidade de métodos e de formas de pensar. Hoje, ela está viciada no próprio conforto e qualquer sujeito que a critique é expurgado”.
 
Na entrevista a seguir, ela analisa o modus operandi da esquerda hoje, o legado de junho de 2013 e a greve geral de 28 de abril.
 
CartaCapital: No artigo “Ação performática: sintoma de uma crise política”, você apresenta a ideia que a ação performática está sendo usada como tática preferencial da esquerda hoje no Brasil. O que é ação performática? Como ela se manifesta nos dias de hoje?
Clarisse Gurgel: O termo vem do teatro e da ideia de performance teatral. A performance tem esse caráter de simular algo extraordinário, fora do cotidiano. É uma ação efêmera, pouco ensaiada, que ocupa o espaço público também de uma forma pouco usual ou regular.
 
A ideia de me apropriar do teatro para descrever como a esquerda atua era uma tentativa de me apropriar do tempo e do espaço dessa forma especial de teatralização, dessa forma específica de fazer política hoje.
 
CC: Que forma de fazer política é essa?
CG: Em resumo, é você simular que está sendo espontâneo e atuar de forma efêmera, ou seja, sem continuidade. É priorizar eventos, como atos, marchas, passeatas, abraços a monumentos etc. O centro no evento é tão grande que a esquerda cai na própria armadilha de, por exemplo, ocupar um espaço e depois não saber sair dele. E, ao sair, acabar derrotada ou desgastada.
 
A ação da esquerda hoje não tem muitos desdobramentos, é concentrada no tempo presente. O curioso disso é que essa tentativa de simular uma espontaneidade é, na verdade, uma tentativa de fugir de um estigma que associa a esquerda ao autoritarismo, ao stalinismo, ao burocratismo. Tentando fugir desse estigma, o diagnóstico que eu faço é que a esquerda acaba por reforçá-lo.
 
CC: Como assim?
CG: Essa tentativa de fugir do estigma do burocratismo faz com que a esquerda priorize a política como evento. Só que, assim, ela mesma se burocratiza mais, porque deixa de dedicar o seu tempo a um trabalho continuado de formação política, de propaganda e de agitação e passa a se concentrar única e exclusivamente a organizar o evento, descolando-se ainda mais de suas bases sociais.
 
Esse estigma vem, em especial, do stalinismo. O stalinismo é um fenômeno que merece mais atenção, porque, muitas vezes, ele é resumido a um processo de burocratização. Mas a leitura que se fazia do stalinismo como um fenômeno de excesso de burocracia e de uma rigidez muito grande por parte do partido bolchevique gerou uma reação que eu identificaria em dois fenômenos.
 
CC: Quais?
CG: Um é a rejeição à própria forma de organização em partido. A outra é uma preponderância das bandeiras identitárias. Acho que a gente vive esse reflexo até hoje: a rejeição ao partido e a preponderância das pautas identitárias como contraponto a categorias mais universalizantes, como a própria categoria de classe.
 
Então, em face disso, o que acontece é um movimento, em especial, que tem como vanguarda o movimento trotskista, que vai vir na contramão desse diagnóstico da burocratização. O trotskismo tem como bandeira o combate à burocracia do partido e em especial o burocracismo. A burocracia é um mecanismo de segurança de qualquer organização coletiva, mas o burocratismo, a exacerbação da burocracia passa a ser alvo do trotiskismo.
 
Em especial, nas décadas de 80 e 90 para cá, o trotskismo passa a ser a corrente hegemônica no campo da esquerda no mundo, em especial, naqueles partidos que tem referencial no bolchevismo. Esse trotskismo vem acompanhado de um receio, um certo constrangimento, e eu aponto até para um aspecto meio patológico da rejeição a sua própria forma, a forma partido. Num sujeito coletivo, a rejeição a sua própria forma gera consequências graves.
 
CC: Quais são elas?
CG: A rejeição à sua própria forma, que aponto nas legendas revolucionárias ou contra-hegemônicas, leva o partido a atuar de uma forma que parece lembrar esses fenômenos de compulsão, identificados pela psicanálise, de infligir em si mesmo certos ferimentos. Isso marca uma presença, você se sente existindo e, ao mesmo tempo, produz o efeito de chamar atenção para si. Mas é o que se chama de Passagem ao Ato.
 
Uma repetição de comportamentos que revela um desencontro patológico do sujeito com seu próprio corpo, sem um exercício de elaboração, por uma suposta perda da influência de um Grande Outro. Algo que nos faz lembrar a bulimia, a anorexia e tem seu extremo no suicídio.
 
Mas há outra forma de compulsão que se chama na teoria psicanalista de “acting out”. O acting out é uma forma de repetição em que o sujeito finge agir espontaneamente, mas está repetindo algo que ele já fez, na tentativa de que aquele que lhe negou a escuta, o ouça dessa vez.
 
E esse que lhe nega a escuta eu identifico como a grande mídia, que não deixa de ser um grande outro. Por isto, a ação perfomática estaria mais próxima de ser um Acting Out.
 
CC: Pode dar um exemplo?
CG: Há um exemplo muito interessante: um ato em apoio aos iraquianos na época da ocupação americana no país, em 2003. Na ocasião, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush foi até o Iraque e um jornalista arremessou um sapato em sua direção.
 
No Rio de Janeiro, foi organizado um ato em apoio aos iraquianos em frente à embaixada americana. E, para o ato, se organizou uma atividade em que os militantes jogariam sapatos na embaixada. É interessante porque era para mostrar que aquilo era espontâneo, fruto do acirramento dos ânimos dos manifestantes, mas os próprios manifestantes levaram um par extra de sapatos para jogar – e aqueles que estavam efetivamente com os ânimos acirrados e pegaram carona naquele preparativo, quiseram jogar seus próprios sapatos nas vidraças da embaixada.
 
Nesse momento, os organizadores disseram no microfone para os militantes não jogarem na fachada, mas do lado, porque tinha sido combinado com os policiais que não haveria danos ao patrimônio.
 
Esse é uma ilustração perfeita do que é a tentativa de entrar em uma pauta midiática sem criar danos reais, na perspectiva de ser bem narrado – e descolado completamente dos anseios efetivos daqueles que estavam dispostos a demonstrar apoio aos iraquianos.
 
É um caso exemplar de “acting out”, porque é um sujeito repetindo um ato, na tentativa de ser ouvido.
 
O problema é que, quando você procura se desimplicar do próprio ato, na expectativa que o outro lhe dê sentido, você fica muito refém do outro. E a grande mídia não é companheira na hora de narrar os atos da esquerda, em especial da esquerda contra-hegemônica.
 
CC: É possível identificar isso em 2013, quando houve grandes atos com a presença da mídia
CG: Sem dúvida. Acho que 2013 é o ovo da serpente de 2017. O que vivemos em 2013 foi uma experiência estritamente de agitação, que é você ir para a rua e denunciar. Quando você resume a prática política à mera agitação, sem um conteúdo que signifique propagar e enraizar esse discurso no imaginário, o que acontece é que aqueles que estão mais organizados e tem mais estrutura, pegam carona e imprimem à agitação o sentido que querem.
 
CC: Como isso aconteceu em 2013?
CG: O ato começou com um movimento que tinha uma bandeira clara, contra o aumento da tarifa de ônibus. Era um movimento de uma vanguarda de jovens, que, mesmo rejeitando os partidos, era satélite deles, e que se reivindicavam autônomos e horizontais.
 
Aquele ano começa com a expressão disso e com os partidos pegando carona ali, tentando levar para o movimento estudantil e a classe trabalhadora as repercussões da organização desses movimentos sem estrutura. Com a aproximação dos partidos, começam as tensões, que são herdeiras disso de que ainda temos dívida, em relação a elaborar a respeito, que é essa herança do stalinismo. Então, os conflitos internos à esquerda começam a surgir, entre organizações sem estrutura e os partidos da vanguarda.
 
Paralelo a isso, os setores conservadores começam também a ocupar as ruas e pegar carona também no movimento, entendendo, e a direita cada vez mais entende, que ela precisa recuperar – curiosamente – o repertório da esquerda.
 
Ela começa a recuperar, não é nem fazer uso, é recuperar o repertório da esquerda. A palavra de ordem “vá para a rua” quem propaga é a direita e, sem dúvida, como fruto de uma ausência de quadros na direita. Setores conservadores vão para as ruas na perspectiva de deslocar o espaço da política para a rua, para fazer dali um terreno fértil em que surja um quadro (que até agora efetivamente não surgiu).
 
De lá para cá, o que temos é um processo de acirramento efetivo dos ânimos, quase como um clima de pânico generalizado e fantasioso por parte da direita e classe média que começa a perder espaço em face da crise econômica. Esse atores ocupam as ruas e vão dando volume para qualquer palavra de ordem ou “significante mestre”, para usar um termo em voga.
 
CC: O que é isso?
CG: Significante mestre é qualquer som que tenha o efeito de uma mãe dizer a uma criança: “é porque é”. Isso é significante mestre. A criança pergunta o porquê e você responde “porque sim”. O significante mestre tem esse poder. Em meio a uma multidão volumosa, aqueles que têm recursos, como a FIESP, por exemplo, têm plenas condições de colar ali o significante mestre que quiser. Por exemplo, bordões do antipetismo ou dizer que o Brasil vai virar Cuba.
 
CC: E com isso a luta pela tarifa de ônibus fica para trás.
CG: Sim. Hoje vivemos o reflexo de 2013: uma conjuntura em que tem uma massa de trabalhadores que não se espelham em nada e uma esquerda perdeu um aspecto que era uma marca dela, que é a disciplina e a organização. Nesse contexto, qual é o melhor quadro político hoje?
 
É essa figura que não espelha ninguém e se revela um indisciplinado por excelência. Ou seja, aquele que não está vinculado a um partido e que age por si só. Por isso, figuras como o prefeito de São Paulo, João Doria, colam muito bem hoje. Ele não tem lealdade alguma a qualquer estrutura e tem uma coisa que, no contexto de crise econômica, é aquilo que podemos dizer que é a esperança de um povo que anseia pelo nada: o sucesso.
 
CC: Dentro desse contexto, como você analisa os movimentos de “greve geral” realizados em 28 de abril?
CG: Não se usa o termo “greve geral” para anunciar algo que ainda vai acontecer, mas, sim, para olhar retroativamente e descrever aquele fenômeno de paralisação, caso cresça e ganhe aderência de diversas categorias, como uma greve geral.
 
Quando você anuncia uma greve geral, provavelmente estaremos diante de um uso performático de um termo, e de um termo importante para a classe trabalhadora, que não pode ser usado de forma irresponsável.
 
É interessante, no dia da greve, o Michel Temer lançou o “cartão reforma”, um cartão para ajudar em obras. E, sem dúvida, ele tentou disputar o significado de “reforma”. No dia do ato contra as reformas trabalhista e previdenciária, ele lança o cartão reforma. Esse uso pouco honesto de um significante que é de peso, lembra um pouco o uso, pouco honesto também, por parte da esquerda do termo greve e, em especial, greve geral.
 
Nós estamos vendo, sucessivas vezes, o uso do termo greve sendo feito pela esquerda de forma irresponsável. Quando, por exemplo, setores da educação aderem a uma greve já com prazo para terminar, que é a data de votação do orçamento do governo federal no Congresso. Imagine o que é começar uma greve já com prazo de validade: isso esvazia de sentido a palavra greve.
 
Por isso digo que não é só a ação performática, a própria narrativa é também performática. Então, fazer uma greve com prazo de validade chega a ser cômico, porque o patronato apenas espera.
 
Eu não posso dizer também que, na conjuntura de desorganização que estamos, que a paralisação do dia 28 de abril não foi um sucesso. Para a conjuntura foi. E também não vou fechar os olhos para um dado novo, que é a adesão de setores da sociedade civil não integrados à vanguarda ou habituados à militância e a atuação coletiva, como, por exemplo, os professores da rede privada.
 
Mas eu queria registrar um ponto sintomático de tudo isso. Seja a adesão de setores novos ou a paralisação de setores de vanguarda, nenhuma das ações conta com organicidade necessária para os governantes sentirem que a gente não só resiste.
 
Existe uma diferença entre resistir e se insurgir. E quando a esquerda rejeita a forma partido, você tende a duas ações: uma delas é a de resistência, ou seja, imprimir obstáculos em face de uma certa política; e o outro é produzir modos de vida paralelos ao que existe hegemonicamente.
 
Essas duas formas de ação – produzir modos de vida paralelos e resistir produzindo obstáculos – não incidem diretamente na estrutura de poder, que permanece existindo. Ela pode não avançar em face desses obstáculos mas, fora isso, ela fica intacta.
 
E perde-se de perspectiva a ação insurgente, que é colocar em ameaça a própria estrutura de poder. Isso é outro aspecto que se perdeu em face da crítica à forma partido.
 
CC: Um movimento essencialmente performático é capaz de fazer oposição real a um governo como o de Michel Temer?
CG: Eu não acredito. Eu não tenho dúvidas de que 2013 foi o ovo da serpente chamada Michel Temer, que nem se chama Temer, mas, sim, PSDB. Mas eu não digo que as manifestações da direita foram as responsáveis por derrubar a Dilma.
 
Na verdade, a estratégia de derrubar a Dilma impulsionou os conservadores a ficarem nas ruas. Essa é a diferença de você entender um movimento organizado cuja ação na rua é fruto do acirramento. Quando a esquerda parte da ação da rua, ela está invertendo o processo. Ir para a rua é o ápice.
 
A esquerda precisa recuperar a ação que fazia nos locais de trabalho, nas associações de moradores, nos núcleos partidários, nos movimentos sociais.
 
Isso se perdeu e, atualmente, o sujeito que faz esse trabalho são as igrejas, oferecendo serviços de assistência social e fazendo até o papel de mediadora de conflitos, entre traficantes e moradores da favela. É claro que igreja e tráfico não deixam de ser braços do capital. Isto facilita muito o trabalho destas instituições. Mas, tal como a igreja, a esquerda precisa encontrar meios de voltar a estar presente cotidianamente na vida dos trabalhadores. De início, fazendo as vezes da face propositalmente ausente do Estado. Este é um trabalho primário, de dia a dia
 
CC: Esse diagnóstico de que a esquerda precisa voltar para a base não é novo e, na verdade, já virou um lugar comum. Por que é tão difícil colocar esse discurso em prática?
CG: Em primeiro lugar, para fazer isso é preciso que os quadros da esquerda não façam só a autocrítica pública, mas imprimam um desdobramento prático a autocrítica.
 
E como fazer esse desdobramento? Os quadros precisam estar dispostos a acolher, em seus aparelhos, sindicatos, centros acadêmicos, diretórios, comissões de fábrica, etc, novos membros, com mais coragem para se apresentarem às bases em nome de um partido ou organização. Porque o que está acontecendo é que a esquerda está envergonhada.
 
Quando ela vai à base é nos processos eleitorais internos, como uma eleição do sindicato. Fora disso, ela se recolhe e, vamos ser justos também, porque os próprios militantes precisam correr atrás de um ritmo de produtividade imposto pelo capital. Veja, o militante tem que responder ao patrão e também ao partido que também funciona como uma empresa, que estabelece metas para o militante. Ele precisa dar retorno sobre numero de votos, de panfletos distribuídos etc.
 
Essa numerologia do trabalho do militante, seja o trabalho para o seu patrão do capital ou para o patrão do partido, esvazia de conteúdo efetivo a prática do militante.
 
A esquerda precisa ser mais humilde, mais disposta a acolher uma diversidade de métodos e de formas de pensar porque a esquerda viciou-se em seu próprio conforto. Qualquer sujeito que critique seus métodos é expurgado. Não basta a autocrítica pública, é preciso acolher a crítica do companheiro.
 
CC: Como essas críticas são recebidas?
CG: Qualquer um que faz críticas “pela esquerda” à esquerda é visto como alguém que alimenta e favorece a direita. Quando a esquerda perceber que a crítica pela esquerda é algo que faz com que ela avance, ela avançará.
 
https://www.cartacapital.com.br/politica/a-esquerda-esta-viciada-em-seu-proprio-conforto